Nos pênaltis e diante de um Maracanã lotado, a seleção brasileira conquistou o inédito ouro olímpico (Foro: LUIS ACOSTA / AFP)

Nos pênaltis e diante de um Maracanã lotado, a seleção brasileira conquistou o inédito ouro olímpico (Foro: LUIS ACOSTA / AFP)

18 quilates. 18 nomes. 18 medalhas. Conquista da mais preciosa. Que reluz. Em uma camisa acostumada a trazer brilho sozinha. Em um Maracanã lotado, contra a Alemanha. O gol, agora, é do Brasil. Do camisa 10. Ouro traduzido em lágrimas de um garoto que se acostumou a conquistar pelo mundo da bola e que deu a quem tinha quase tudo justamente a glória que faltava. Enredo com final para contar por algumas gerações. E para libertá-las. O ouro brasileiro no futebol masculino é pesado. 18 nomes. 18 quilates.

Foi um bico na lata. No último complexo vira-lata do futebol. Nos Jogos Olímpicos a seleção brasileira carregava aquele olhar desconfiado. E pressionado. No fundo, todos acreditavam, jamais daria certo. Houve a prata de 88 com Romário e companhia. O gol de Kanu, o perigoso, em 96. O golpe derradeiro dos camaroneses em 2000. A vergonha com a ausência em 2004. Messi pelo caminho em 2008. A confirmação da sina em 2012. Pura lata. Complexo de vira-lata. Só mesmo um banho de ouro para mudar o panorama. 18 medalhas de ouro. 18 nomes. 18 quilates.

Pois, claro, não seria fácil desafogar o único porém de quem estava acostumada a brilhar em tudo. Em plena crise de identidade. Humilhada no último embate diante dos seus. A chance, de novo, era entre os seus. Contra o mesmos. Entre meninos e homens. Primeira fase aos trancos e barrancos. Mas os 18 nomes de Rogério Micale demonstraram, em um Maracanã abarrotado, que têm brio. Fizeram um jogo consciente. Houve organização, troca de passes diante de um rival que, se não tinha o que de melhor poderia ter, era duro. A Alemanha. A mesma do 7 a 1. Fria, trocando passes. Pronta para criar um novo episódio no complexo. Mais lata para quem não tinha ouro. Não era pouco.

E lá foi Neymar, menino de ouro, o craque enfezado da camisa 10 entre os 18, cobrar falta nas alturas com 26 da primeira etapa para Horn não alcançar nem mesmo esticando os braços ao máximo. Grito na arquibancada. Grito dos 18 convocados. Era um passo. Parecia tão perto. Mas podia, também, parecer tão longe como em outros momentos olímpicos. Havia sempre um porém. Sempre um motivo para desconfiar. Ser vira-lata. Hesitar com a chegada do ouro. Não importava que o time estivesse na frente. Que Renato Augusto, em noite soberba no quintal de sua casa, controlasse o meio de campo postado frente à zaga. Funcionou quando deveria mesmo funcionar. E que Luan, menos badalado e responsável por tornar um trio em um quarteto, enchesse os olhos. Mas havia algo diferente. Por três vezes, os alemães perderam chances de ouro. Chances do ouro. Três bolas na trave. Ah, mas aquele complexo de vira-lata fazia desconfiar do brilho. 18 quilates. 18 nomes.

Necessários para aguentar a pressão mesmo quando Meyer, de primeira, tocou para o fundo da rede de Weverton. Ali parecia tudo incerto. Gabriel Jesus, o menino pródigo, seria olhado com desconfiança. Gabigol ironizado pelo apelido. Neymar, mais um astro na lista de heróis que falharam na jornada. Pesos de uma carreira. Não qualquer peso. 18 medalhas de ouro em jogo. 18 quilates. 18 nomes. Que aturaram bem a pressão. E que pressão. Decisão por pênaltis. O ouro ali por algumas cobranças. O desafogo para gerações futuras de torcedores e jogadores. O Maracanã, de novo, respirando fundo para evitar outro episódio melancólico. Evitar que o ouro virasse lata.

Coube a Weverton agigantar-se e honrar o sonho dourado de Fernando Prass. Pênalti defendido. Faltava o dele. Neymar caminhou para a área. Levou nas costas os seguidos fracassos olímpicos. A diferença entre ser homem e menino. A estrela. Ouro ou lata. Diante de um Maracanã de gente. Diante de seus 17 companheiros. Logo ele. O craque. O 18º fora da roda. E a bola dentro da rede. Choro de quem já tanto conquistou. Explosão de quem já tanto sofreu na arquibancada. A liberdade de gerações. Sim, o Brasil já não clama mais pelo ouro. Sua coroa está completa. O caminho para a retomada, indicado. Sem revanchismo. Momento único de meninos. 18 meninos. 18 homens. 18 medalhas de ouro. 18 quilates.