Neymar: astro da seleção de homens, estrela da seleção de meninos (Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP)

Neymar: astro da seleção de homens, estrela da seleção de meninos (Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP)

O homem. Quando o árbitro apita o fim da partida na Arena Corinthians e a vaga da seleção brasileira olímpica está confirmada para a semifinal, ele aparece na imagem. Camisa 10, vai em direção à torcida, dá um soco no ar, vibra. É o capitão. Parece ter plena consciência do que representa. Comanda um grupo de garotos no campo e na cabeça. É o alvo. Será também o escudo. O menino. Camisa 10 nas costas, o atacante procura o embate com os colombianos, claramente dispostos a choques violentos. Ri, parece ironizar. Toma uma, duas, três faltas. Irrita-se. Parte para cima, acerta o adversário por trás. Sai correndo como um guri que tocou a campainha do vizinho. O menino. A eterna busca pelo equilíbrio. É Neymar Júnior, 24 anos. Astro da seleção de homens. Estrela da seleção de meninos.

A ambiguidade na postura de Neymar talvez possa refletir a irregularidade da seleção olímpica na busca pelo ouro. A bola queima, os holofotes aparecem. Natural que Neymar, apesar dos 24 anos de vida e oito de carreira, sinta um incômodo. Por seu talento, ele se tornou herdeiro único do decantado talento brasileiro para jogar futebol. A pressão se concentra nele. Natural também. É referência mundial no Barcelona. É o N do badalado trio MSN com Messi e Suárez. Já tem um filho, renovou contrato milionário. É homem. Diante da Colômbia, Neymar viveu os dois lados como poucas vezes pôde ser observado mais recentemente. Revezava-se entre o homem e o menino.

O homem. Com 12 minutos, ele provou saber enxergar os atalhos do campo aprendidos nos anos de carreira. Viu, de longe, o goleiro Bonilla armar a barreira de maneira quase infantil. Aproveitou o buraco, bateu firme, no canto direito do goleiro, sem chances. O gol que fez explodir a Arena Corinthians e relaxar seus companheiros. Neymar foi poupado da Copa América para decidir nos Jogos Olímpicos. Ainda não havia marcado. Enfim, o gol saíra. O homem decidira. Braços abertos, a caminho do povo, reverenciado pelos garotos com quem compartilha a luta pela busca do ouro. Mas o menino insiste em despertar em Neymar. Como na Copa América de 2015. Busca o contato, entra em um bate boca, provoca. Tenta desarmar os adversários com catimba. Mas quase cai na própria armadilha.

O menino. Um revide no adversário temperado pela irritação quase infantil poderia ter resultado numa expulsão. A pancada foi devolvida com a mesma intensidade das que levara antes. Com o início da confusão, correu em meios aos amigos vestidos de amarelo. Ainda que fosse o capitão. Ainda que fosse a principal referência. Ainda que tivesse de proteger e não ser protegido. Levou apenas cartão amarelo. Mais tranquilo, alternou novamente. Chamou as faltas de Barrios, Pabón, Preciado. E não revidou. Manteve-se mais sereno até o fim do primeiro tempo. Buscou o equilíbrio que precisa não só para a seleção brasileira. Mas para a carreira em si.

Na parte final do jogo em Itaquera, Neymar foi o que dele se espera nos Jogos Olímpicos. Criou bons lances, tentou arremates e ajudou o time de quatro atacantes de Rogério Micale a se recompor melhor para dificultar os rivais. O nervosismo ficara de lado. Talvez tenha lembrado que uma entrada forte de um colombiano o deixou fora de seu sonho anterior, a Copa do Mundo. Licões somadas pelo menino que ajudam na formação do homem. Mais calmo, Neymar rende. Sem bico, sem provocação. Com a bola do craque que é. No fim da partida, ele achou Luan no meio e lançou o gremista, que arrematou para o segundo gol. Neymar, homem e capitão, sorriu como um menino ao lado de Luan.

Na zona mista, preferiu mais uma vez não conceder entrevistas. Talvez um menino reticente com a repercussão. Talvez um homem ciente de que não era o momento de verbalizar os sentimentos do campo. Lá e cá. Assim como a seleção de Micale, o craque busca o equilíbrio para pendurar a medalha de ouro no pescoço. É menino. É homem. É um craque com amadurecimento ainda em curso aos olhos do público.