Darlan Romani era um desconhecido até dia 18 de agosto de 2016. Só sabiam seu nome aqueles que vivem o mundo do atletismo. Na manhã desta quinta-feira, o atleta catarinense preparou-se para as eliminatórias do arremesso de peso, prova em que o Brasil tem nenhuma tradição. Darlan não era um candidato a medalha. Seu nome sequer era citado entre os finalistas. Mas com um lançamento de 20,94 m, bateu o recorde nacional e ficou entre os 12 finalistas. Nunca um brasileiro havia chegado tão longe. De noite, com a sensação de já ter feito seu melhor, foi além: arremessou 21,02 m, novo recorde nacional, e terminou em quinto lugar, à frente do então bicampeão olímpico e de um bicampeão mundial.

O resultado histórico de Darlan não é único. É natural que uma boa parte da imprensa e da torcida olhem com mais atenção para as medalhas conquistadas pelo Brasil. Mas entre aqueles que chegaram perto da medalha ou em finais existem conquistas espetaculares. Enquanto escrevia este texto, a equipe de nado sincronizado terminou na sexta colocação – o Brasil jamais havia disputado uma final olímpica da prova. Se Isaquias Queiroz, o campeão da canoagem de quem falávamos há mais de um ano, já surpreendeu tanta gente, como poderia Darlan Romani e tantos outros com resultados menos expressivos neste ciclo olímpico serem conhecidos?

Darlan Romani, primeiro brasileiro finalista do arremesso de peso

Darlan Romani, primeiro brasileiro finalista do arremesso de peso (Foto: Franck Fife/AFP)

A dois dias do fim dos Jogos Olímpicos, e com a maior parte da participação do Brasil encerrada, é importante lembrar que medalhas são importantes – e caberá ao Comitê Olímpico do Brasil explicar por que a meta não foi atingida -, mas que grandes resultados que não chegaram a medalhas também são importantes e em alguns casos podem indicar um bom futuro em algumas provas e modalidades.

Darlan não foi caso único. Também na quinta-feira, Luiz Alberto de Araújo foi o décimo no decatlo, com sua melhor marca pessoal. Nos primeiros dias da Rio 2016 vimos Hugo Calderano chegar às oitavas de final do tênis de mesa, repetindo feito de Hugo Hoyama em Atlanta 1996. E que tal o sétimo lugar de Flávia Oliveira depois de 136,9 km pedalando na prova de estrada do ciclismo? Caio Bonfim foi quarto colocado na marcha atlética de 20 km e oitavo na de 50 km. Fernando Reis ficou em quinto lugar na categoria + 105 kg do levantamento de peso, com recorde brasileiro. Ainda há tempo para mais. O que os últimos dois dias reservarão? Wagner Domingos, o Montanha, disputará a final do lançamento do martelo. No momento em que este texto está sendo escrito, Erica Sena disputa a marcha de 20 km em condição de disputar medalha.

Hugo Calderano chegou às oitavas de final do tênis de mesa, o que não acontecia há 20 anos

Hugo Calderano chegou às oitavas de final do tênis de mesa, o que não acontecia há 20 anos (Foto: Washington Alves/Exemplus/COB)

E isso para falar de esportes que ficam fora das luzes no dia a dia. Mas sem esquecer de resultados brilhantes como o sexto lugar da equipe masculina de ginástica artística e o handebol masculino, ainda abaixo do nível do feminino, chegar às quartas de final depois de vitórias contra as potências Alemanha e Polônia.

A cultura de gostar apenas de quem vence divide injustamente o mundo entre vencedores e perdedores. Como disse Caio Bonfim depois do gigante quarto lugar na marcha de 20 km, é preciso repensar a cultura de que apenas a medalha é valorizada. Todos querem medalhas, é delicioso comemorar cada uma delas. Mas Caio, assim como Darlan, Luiz Alberto, Hugo, Flávia, Fernando e outros que tiveram desempenho enorme no Rio, ainda que sem pódio, merecem ser celebrados e observados. Porque fizeram um papel sensacional e porque a medalha pode estar logo ali, em Tóquio.

Atualização: Erica Sena terminou a marcha atlética de 20 km em sétimo lugar, depois de passar boa parte da prova em quarto e quinto.