Por Thiago Arantes*
Autor convidado

A percepção do ser humano diante de sua própria história é algo recente. As primeiras tentativas de perpetuar-se para as gerações seguintes datam de 30 mil anos atrás – pouco, quase nada, se considerarmos a existência da espécie, do planeta, do universo.

Por isso, a história humana como a conhecemos é curta, breve demais se colocada em perspectiva maior. O que é “histórico” hoje, pode ser trivial em 500, 10 mil anos.

Os heróis de nossos dias serão superados – talvez esquecidos – com o passar do tempo. Um destino cruel, mas também natural. O esporte evolui, o ser humano evolui, e ter novos ídolos é parte da engrenagem que faz girar a roda da vida; novos ídolos nos dão inspiração e esperança.

Mas, daqui a 10 mil anos, se algum ser humano ainda estiver sobre a superfície do planeta, ele saberá quem é Michael Phelps.

Michael Phelps nadando na Rio-2016

Daqui a séculos, se a Terra existir, saberão quem é Michael Phelps (Foto: François-Xavier Marit/AFP)

O nadador das 25 medalhas olímpicas, 21 de ouro, é o maior atleta de todos os tempos, em todos os esportes (e aqui não cabe nenhuma concessão poética do tipo “Pelé era um E.T.”, ou “Michael Jordan veio de Marte”).

Comparar atletas de diferentes épocas e diferentes esportes é um exercício subjetivo. Mas há critérios que me fazem eleger Phelps o maior de todos: domínio de seu esporte, incidência sobre seus resultados, longevidade e capacidade de se reerguer.

Phelps é o maior vencedor dos 120 anos dos Jogos Olímpicos da Era Moderna; é o melhor em uma modalidade individual (ainda que com revezamentos), o que reduz a influência de seus companheiros; é quase imbatível há 12 anos, algo que quase nenhum outro atleta conseguiu, e cada vez menos conseguirão; e chegou ao Rio sob dúvidas, depois de aposentar-se e passar mais de dois anos sem pular em uma piscina. Tem o pacote completo.

Phelps é, para nossos tempos, o que foi Leônidas de Rhodes na Grécia Antiga. O mitológico corredor ganhou, durante quatro olimpíadas seguidas, as três provas mais rápidas do atletismo – stadion, diaulos e hiplitodromos. Mais de dois mil anos depois, ele é o maior herói dos jogos da antiguidade, o que mais resistiu ao tempo, o símbolo de um momento marcante dos esportes e de toda uma era da civilização humana.

As medalhas de Phelps, hoje, nos fazem cair na tentação de “transformá-lo” em um país, para que o mundo tenha ideia de sua dimensão. Com o tempo, Phelps será muito maior do que isso. Daqui a alguns séculos ou milênios, os países já serão outros, o mundo será diferente, e, com centenas de olimpíadas disputadas, a comparação perderá força.

Michael Phelps no pódio da Rio-2016

Michael Phelps no pódio da Rio-2016: o maior de todos (Foto: Odd Andersen/AFP)

Phelps, contudo, continuará vivo. Não como um país hipotético, mas registrado como o maior atleta da história daquele momento da civilização humana, daqueles primeiros séculos de resgate dos Jogos Olímpicos.

Será, neste futuro quem nem nos atrevemos a desenhar, o símbolo máximo das capacidades físicas de uma era da existência de nossa espécie. Um mito perene, histórico na mais eterna das acepções do termo.

Uma lenda que carregará conceitos, as conquistas, falhas e angústias de todos nós.

* Thiago Arantes é jornalista, mora em Barcelona, viu Phelps se aposentar uma vez e não que ver a segunda.