A redenção estava completa. Phelps, enfim, está livre (Foto: GABRIEL BOUYS / AFP)

A redenção estava completa. Phelps, enfim, está livre (Foto: GABRIEL BOUYS / AFP)

Michael Phelps está livre. Não pela aposentadoria aos 31 anos, com cinco Jogos Olímpicos, 23 medalhas de ouro, três de prata e duas de bronze. Não pelo choro ao deixar a piscina pela última vez como profissional. Mas por um sorriso. Leve, espontâneo e surpreendente. Phelps, a máquina trabalhada por anos para bater adversários e pulverizar recordes, mostrou seu maior sorriso nos Jogos do Rio de 2016 na única derrota que encarou na piscina carioca. Vencido minutos antes por Joe Schooling na final dos 100 metros do nado borboleta, o maior atleta olímpico abriu os olhos e conferiu o tempo: 51s14. O mesmo do rival Laszlo Csesh e do desafeto Chad Le Clos. Abriu um sorriso e indicou com as mãos os número três. Três pratas.

Para chegar ao Rio de Janeiro, Phelps passou por uma depressão que quase o levou ao suicídio depois de Londres em 2012, onde anunciara a aposentadoria precoce. Maior vencedor dos Jogos Olímpicos, ele teve de superar as barreiras pessoais. Reconstruir a relação com o pai, Fred. Aceitar internação por 45 dias em uma clínica de recuperação. Destruir-se para, como nas piscinas, fazer uma virada sobre-humana. Phelps conseguiu. Empenhou-se, atingiu os índices. Mas ainda não estava livre. No Estádio Aquático do Parque Olímpico do Rio 2016, Phelps, de braçada a braçada, nadava por sua liberdade. Ganhou, de novo, um ouro nos 200 metros do nado borboleta. Ali já parecia mais leve. Curtiu o pódio, sorriu e, no meio da volta olímpica, parou para beijar o filho Boomer, de pouco mais de dois meses, no colo da mãe, Nicole, na arquibancada. Emocionou. Phelps nadava de braçada para a liberdade ali, a olhos vistos, como se anunciasse a todos. A máquina era, enfim, humana.

Mas ainda havia espaço para o velho Phelps. Determinado, programado para vencer rivais. Cobrado por si próprio e por demônios pessoais que tornam o atleta mais dócil no mais feroz competidor. Ainda mais com desafetos, com quem já trocara farpas e que já havia roubado seu ouro nos 200 metros medley. De repente, à espera do chamado para ir para a piscina, Phelps, de roupão e fone no ouvido, viu o sul-africano Chad Le Clos provocá-lo com uma dancinha. A expressão irada de Phelps correu o mundo. Parecia ter ódio. Um Phelps do passado. Ele venceu Le Clos, mas ainda não estava livre. Faltava algo.

Dois dias depois, ao tocar a borda e se surpreender com o mesmo tempo de Le Clos e Cseh, Phelps indicou que o maremoto ficara pra trás. Chegar ao Rio não se tratava apenas de reconquistar o trono da natação ou pendurar mais medalhas de ouro no pescoço. Era um reencontro do garoto de Baltimore que achou nas piscinas a maneira mais fácil de encurtar o atalho para a dar sentido à própria vida. No Rio, Phelps surpreendeu quem duvidava que ainda teria como manter a excelência de sempre. E foi surpreendido. No pódio, Phelps recebeu o convite de Chad Le Clos, o desafeto, para subir ao pódio de mãos dadas. Sorriu. E aceitou. Unido com o sul-africano, que segurava a mão de Cseh na outra ponta, Phelps subiu talvez ao pódio mais importante de sua vida. Leve, acompanhado de rivais. Pouco importava não ser o lugar mais alto. A família na arquibancada. A redenção estava completa. O sorriso desenhado com uma sincera felicidade indicava. Phelps, enfim, está livre.