Ryan Lotche acreditou que sua condição de ídolo serviria para sustentar uma mentira (Foto: MARTIN BUREAU / AFP)

Ryan Lotche acreditou que sua condição de ídolo serviria para sustentar uma mentira (Foto: MARTIN BUREAU / AFP)

O norte-americano Ryan Lochte já conquistou cinco medalhas de ouro em Olimpíadas, além de ser detentor de recordes mundiais. Após o fim das provas na Rio 2016, saiu com os companheiros de equipe para uma festa na Lagoa, zona sul da cidade. Mas a noite não acabou bem. No dia seguinte, Lochte disse à rede NBC ter sido assaltado por bandidos armados e, nas horas seguintes, agradeceu aos fãs pelo apoio após o trauma.

Mas aí então começaram as investigações da polícia, que revelaram contradições nos depoimentos das supostas vítimas. Não demorou a surgirem vídeos de circuitos internos. No primeiro deles, Lochte e os colegas chegam à Vila Olímpica às 6 da manhã, trançando as pernas, com seus celulares, relógios e carteiras. Depois, imagens mostraram o grupo em um posto de gasolina sendo abordado por seguranças do estabelecimento. A farsa estava enfim revelada. Hoje, os outros três atletas dos Estados Unidos envolvidos no episódio confessaram que a trama foi inventada por Ryan.

Desde o início dos Jogos Olímpicos, se discute qual a linha que separa as falhas de infraestrutura e segurança do Rio de Janeiro das teorias pré-concebidas por atletas e veículos de imprensa do exterior. Do vírus Zika ao caos urbano, logo nasceram reportagens antecipando o que seria um fracasso colossal da organização do maior evento esportivo do mundo.

Ninguém nega os graves problemas sociais que não só o Rio de janeiro, como o Brasil todo apresenta, mas, ao que tudo indica, Lochte se aproveitou deste quadro traçado muito mais por osmose do que baseado em fatos. Embriagados, os nadadores arrumaram confusão e provocaram danos num posto de gasolina. Testemunhas relatam, inclusive, que os atletas urinaram em paredes do estabelecimento. Qual a solução encontrada? Juntar o histórico de violência do local à complacência que normalmente se dá aos ídolos esportivos.

E a mentira de Ryan Lochte, um adulto de 32 anos, ofende não só os brasileiros, mas também seus compatriotas. É uma tentativa cretina de transferência de culpa, aproveitando-se de um ambiente todo preparado para acolher gigantes esportivos. O ídolo, o vencedor, o super-herói, a vítima. Mas o excesso de confiança impediu o atleta de enxergar o tamanho do risco que estava correndo. Até porque o próprio Comitê Olímpico Internacional logo correu para investigar o caso e dimensionar o tamanho do estrago que episódios assim podem causar.

Ryan Lochte se despede das Olimpíadas menor do que quando chegou ao Rio. O ouro conquistado no revezamento 4 x 200 livre já está totalmente ofuscado por uma trama criada com a certeza de que todos ficariam do seu lado. Assim como a carreira de um atleta, a mentira tem raia curta. E a medalha agora servirá como eterna lembrança de um vexame.