Um salto para a história. Após 32 anos, o Brasil tem um novo campeão olímpico do atletismo entre os homens (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

Um salto para a história. Após 32 anos, o Brasil tem um novo campeão olímpico do atletismo entre os homens (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

Um segundo e vinte e dois centésimos. Tempo necessário para transformar um garoto em herói olímpico. Para explodir um estádio. Para ultrapassar um sarrafo. Para um recorde olímpico. Para eternizar-se. Para voar. E despencar pouco mais de 6,03 metros. Punhos cerrados, braços estendidos. Em êxtase, ele caiu com um grito. Queda para a glória, num triunfal mergulho no colchão olímpico. Thiago Braz da Silva. Sim, mais um Silva que a medalha brilha. Num voo ensurdecedor.

Assim fomos apresentados ao mais novo campeão olímpico brasileiro. Salvo no caso de um especialista em salto com vara ou de uma ou outra referência a mais um atleta nacional, conhecemos ontem as inúmeras histórias em uma história só. Thiago foi abandonado pelos pais e criado pelos avós. Thiago era cotado para ser medalhista, mas deveria superar o psicológico que foi entrave em competições oficiais. Thiago deixou o Brasil para treinar na Itália com um técnico ucraniano que ensinou Sergey Bubka e Yelena Isinbayeva, mestres no salto com vara. Thiago é muito religioso. Thiago, 22 anos, é casado com uma atleta. Thiago gosta de aviões em miniatura. No Engenhão, Thiago voou.

Tão alto que deixou seu rival, Renaud Lavillenie, fora do prumo. Campeão olímpico, recordista mundial, o francês teve seu escudo de concentração pulverizado com os 6,03 metros ultrapassados pelo desafiante brasileiro. As vaias antes inaudíveis a Lavillenie passaram a ser um estrondo capaz de derrubar um sarrafo a 6,08 metros de altura. Culpa de Thiago. Descompensado diante das vaias e da medalha de prata, o francês julgou-se um Jesse Owens diante de Hitler e sua arquibancada de nazistas.

Derrubou, de novo, o sarrafo. E ignorou duas histórias. A do passado e a do presente. Jesse Owens afrontou as vaias com a vitória. Thiago acordou atleta e dormiu campeão e recordista olímpico por pensar alto. E, mesmo iniciante, desafiá-lo. Característica de quem escreve história sem notar. Superou, além do sarrafo, a própria barreira. A luta de todo atleta com si próprio. A maior de todas as competições oficiais é dele agora. Em uma queda de um segundo e vinte e dois centésimos. Que fez um estádio olímpico prender a respiração. Um rival ficar boquiaberto. Um voo ensurdecedor.