O sorriso, a certeza da vitória e o controle absoluto do corpo (Foto: Fabrice COFFRINI / AFP)

O sorriso, a certeza da vitória e o controle absoluto do corpo (Foto: Fabrice COFFRINI / AFP)

A imagem está eternizada por pausar o raio em seu divertido voo. É simbólica. Usain Bolt lidera com tanta folga a disputa de uma das semifinais dos 100 metros rasos no Estádio Olímpico dos Jogos do Rio que se dá ao luxo de olhar para o lado. E sorri ao constatar os rivais distantes. O autor é o fotógrafo da agência AFP, Fabrice Coffrini. Na velocidade das redes sociais, a foto ganhou o mundo. Por representar Bolt. Mas além disso. Por explicá-lo. Sim, explicá-lo. Usain Bolt, paralisado, mostra o que lhe dá um caráter mítico: o perfeito controle do corpo.

Diante de tão assombrosos mitos do esporte, geralmente caímos na tentação de compará-los. Ainda que em modalidades distintas. Passadas com braçadas. Bolt com Phelps. São duas lendas, habitantes do Olimpo dos atletas. Ambos têm o controle de seu corpo. Phelps pensa como precisa realizar a virada para abocanhar a medalha nos metros finais. Mas o nadador tem mais tempo para o raciocínio, até cinco vezes mais para cumprir a mesma distância de 100 metros. Bolt conta com menos de dez segundos para provar ser o homem mais rápido do mundo. Tem de calcular passadas, o momento do sprint sem direito a erro. E ainda assim reserva o tempo para apontar para si e celebrar antes de cruzar a linha de chegada.

Foi assim na final que lhe rendeu o tricampeonato olímpico nos 100 metros rasos. O norte-americano Justin Gatlin, seu principal rival, explodiu de forma impressionante e foi à ponta. Bolt estava atrás. Mas repare nas imagens. O jamaicano larga em quinto, talvez sexto. Na metade final da prova já está consciente de que seria o vencedor. Ainda que estivesse atrás. Ainda que estivesse diante de rivais incrivelmente velozes. Em sua cabeça, a vitória era certa. Sem desespero, ele tinha o controle de sua própria máquina. Não se trata apenas de autoconfiança. O domínio de Bolt sobre o seu corpo é praticamente mecânico. A dose certa. Nem a mais, nem a menos. E lhe rendeu o arranque preciso, o aumento das passadas e a ultrapassagem a poucos metros da chegada. A tempo de apontar para o peito e reverenciar, de novo, a si próprio. Tudo em nove segundos e 81 centésimos.

Em tempo tão reduzido, o controle sobre os próprios movimentos deve ser absoluto. Bolt mostra que o tem. Por isso é descontraído antes da prova e sorri antes do fim. Concede entrevistas e se autoproclama lenda. Sabe perfeitamente que tem um dom não concedido aos rivais. E os perturba por isso. Em sua cabeça o trajeto parece estar pronto. Sabe do necessário se estiver atrás. E do quanto pode se poupar caso esteja bem à frente. Parte, mesmo, como um raio. Daí a falsa impressão de que vence sem esforço. Pelo contrário. Há esforço calculado. Usain St. Leo Bolt OJ tem as rédeas para encaminhar um tricampeonato olímpico às vésperas dos seus 30 anos. Mais passadas, menos passadas. Sorrisos para o lado. Rivais sem o controle. Que é dele. Cada vez mais lenda.

Os adversários de Bolt sempre parecem meros coadjuvantes na disputa (Foto: JEWEL SAMAD / AFP)

Os adversários de Bolt sempre parecem meros coadjuvantes na disputa (Foto: JEWEL SAMAD / AFP)